Teatro de sombras

A delicada projeção balança com o vento quente do Natal. Os passos descalços dos atores convocam os insetos que vivem escondidos debaixo do palco a assistirem ao espetáculo. Meus dedos tremem sobre a mesa de som – a ferramenta que dará vida aos personagens. Suas vozes estão presas na caixa, prestes a conversarem com o público de mais de quinhentos.

O HD externo guarda as memórias como se fosse um baú. É a máquina do tempo mais efetiva inventada até agora – sinto as expectativas e os medos como se estivessem grudados na minha pele mais uma vez. O cérebro prega peças desse jeito; consegue restaurar ao presente a percepção escondida nos bastidores da consciência.

“Eu acho que só viver no momento não é suficiente”, penso ao notar que não guardo fotografias de todas as coisas que já vivi. Impossível, claro, registrar absolutamente tudo. Algumas memórias, no entanto, estão trancafiadas em fitas VHS úmidas, empoeiradas, esquecidas em caixas que as baratas banqueteiam. Sobra, então, a lembrança passageira como uma sombra abstrata criada em contrapartida com a escuridão dos holofotes apagados. Um teatro de sombras que se extingue todo-e-por-completo.

Eu tinha 18 anos quando produzi a minha primeira peça teatral para o público de uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Na época (2009), criei uma reputação por saber mexer em programa de edição de áudio, e por isso fui convidado a gravar todos os diálogos dos personagens para aquela projeção de sombras, que falaria sobre o nascimento de Jesus. Fiquei responsável pelos ensaios, tendo que sincronizar perfeitamente o tempo do áudio com o momento em que o personagem entraria em cena, coberto pelo véu branco iluminado por um ponto de luz.

Tive o meu despertar de artista perto de concluir a faculdade de fotografia, em 2016, dez anos atrás. Antes disso, a arte era algo que os outros faziam, que estava localizada dentro da TV de tubo, nas páginas de livros famosos, nas pinturas e esculturas de museus. Quando comecei a estudar e produzir fotografias que saíam do senso comum engessado da técnica, percebi que eu estava criando o meu próprio mundo. A arte começou a conversar comigo e puxar a minha orelha. E que puxão! Não sobrou alternativa senão segui-la.

As minhas paisagens flutuavam diante da descoberta de que a fotografia, quando despida das expectativas técnicas, invoca um questionamento sobre a realidade do mundo. Até que ponto o que eu vejo é uma fotografia? Até que ponto posso manipular uma imagem em pós-produção para ela se tornar outra coisa? É um assunto que nem cabe somente ao estudo fotográfico, mas a todo o processo tecnológico de geração de imagem.

Na abertura da exposição coletiva dos desvios e do desver (2018) na qual eu fiz parte, um dos organizadores perguntou se a minha arte era feita com aquarela. Tentei explicar o processo, mas fui interrompido por outras pessoas que precisavam ser ouvidas com urgência.

Faz sentido interpretar que a minha paisagem flutuante foi feita com aquarela. Usei tinta colorida e usei água. No mais, foi simplesmente uma fotografia modificada de tal maneira que se tornou outro ser completamente.

Arte é sinestésica.

Não tem explicação a eletricidade no meu corpo quando eu consigo pescar uma nova ideia do oceano. Às vezes ela está tão profunda, que demora a chegar na superfície. É um bicho estranho – transparente, gelatinoso, que machuca, queima e cambaleia pelo abismo.

Essa eletricidade não me deixa ficar longe da arte por muito tempo. Ao vasculhar no baú das memórias, relembro os projetos que já participei e fico motivado a começar tudo outra vez.

Cada ida ao centro de Florianópolis é oportunidade para uma fotografia. Em uma conversa qualquer pode surgir a ideia para um novo texto. A cada mergulho no mar, uma pintura estranha pode ser pescada.

Já disse o suficiente com palavras.


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