O riso da loba

Jonathan Holdorf. 2026.

Quando o despertador treme na mesa de cabeceira à minha esquerda, percebo com atenção inconsciente que é hora de acordar.

5h30.

O barulho da descarga atravessa o encanamento com desespero; um grito – é como se estivesse ao meu lado. Consigo escutar os passos dos vizinhos, o micro-ondas apitando e as portas se abrindo – morar em geminado tem disso; só não estamos todos na mesma casa, porque há uma parede muito fina nos separando.

Despertador pra quê? Reclamo internamente e debato se não é o caso de ficar na cama só mais um pouco. Ninguém se importa, penso. Eu me importo, de modo que jogo as minhas pernas pesadas para fora da cama e ponho os óculos, que são essenciais para que não aconteça um acidente fatal e quebre o meu pescoço ao descer as escadas.

Meus olhos custam a entender o propósito da luz branca. Visto o traje de academia, encaro o meu reflexo e tento ajeitar os cabelos para, no mínimo, fingir que fiz algum esforço. Quando a parte estética está resolvida, vou até a cozinha garantir que uma banana desça até o meu estômago. Como lentamente, mas não tão lentamente a ponto dos minutos passarem demais, afinal, o tempo é uma moeda que preciso economizar.

A tarefa de botar o lixo para fora é quase diária – minha folga é só na terça-feira. O caminhão que leva o lixo comum passa nas segundas, quartas e sextas, enquanto o lixo seco e reciclável é carregado nas quintas-feiras. Sendo assim, acaba virando parte do meu ritual matinal levar os sacos para o seu respectivo lugar.

A única coisa que quebra essa rotina é quando chove demais. Não vou à academia se São Pedro decide brincar de regador.

A minha academia fica a 1,5km de casa; é nesse trajeto que eu encontro situações inusitadas como se estivesse vivendo uma série de comédia. Sob a lua cheia de outono, a noite está presente no amanhecer como a depressão do lobo da estepe.

A trilha sonora varia em sensações: os caminhões passam pesados pelo asfalto carregando as cargas de materiais de construção, um senhor pedala com a sua bicicleta enferrujada ouvindo as paradas de sucesso para cornos dos anos 70, o catador de latinhas acompanhado de seus dois cachorros pretos me dá bom-dia.

Assim começo a reconhecer as pessoas vivendo suas rotinas. As mulheres vão à faculdade ou para o trabalho, o rapaz de terno que parece um CEO de novela corre em direção ao ônibus, o homem grisalho dono de um bar senta desajeitado no banco e assiste a vídeos infinitos no celular; um cigarro a iluminar seus óculos.

E tem as vacas que vivem no terreno baldio e às vezes escapam do cercado e atravessam na faixa de segurança.

Os dias são sempre iguais ou é uma ilusão? São nos detalhes que vemos o roteirista criar as cenas mais intrigantes.

Jonathan Holdorf. 2026.

5h30.

Começa outra manhã sob a luz da lua cheia no céu. Ouço os vizinhos apertando a descarga, levanto e ponho os óculos. Desço as escadas, vou ao banheiro, engulo uma banana e levo o lixo para fora. Olho o céu estrelado e prevejo que não vai chover, apesar de algumas nuvens estarem um pouco estressadas. Os cães parecem nervosos e uivam para alguma coisa misteriosa. Os gatos, como sempre, estão desconfiados.

Meus passos solitários na escuridão da manhã soam como a espingarda de um caçador na tocaia. Fico surpreso, embora seja um acontecimento recorrente, com o som da caixa d’água de alguma casa vizinha a transbordar; ela faz um dueto com a garrafinha que chacoalha na minha mochila molenga de academia.

Admiro o letreiro luminoso de mau gosto piscando em RGB, que tira o propósito das cores originais dadas à identidade visual da loja. Os jovens bebem cerveja e falam alto, porque já não devem conseguir mais compreender coisa alguma.

Eu caminho rápido.

Quem já teve o prazer de me acompanhar sabe que eu costumo deixar todo mundo pra trás. A mulher que está logo na minha frente faz exatamente o oposto.

Ela é alta, de cabelos pretos cacheados banhados a ouro, usa uma saia caramelo que mal cobre o seu traseiro. Desfila lentamente, cruzando uma perna em frente da outra – a rua é o seu palco, a sua passarela. Vixe, tenho que passar do lado dela, em alguns segundos penso na melhor forma de não chamar atenção para mim mesmo. Não vou olhar para o lado, basta passar. Ela toma posse da calçada.

Sigo andando como se eu fosse invisível, mas não deixo de ser notado, afinal, sou o único ali. Naquele momento, somos uma dupla solitária na escuridão, cada qual com o seu objetivo, sem julgamentos. Na minha cabeça o tempo parece não passar. Ela desfila com paciência e eu acelero porque quero que isso acabe logo. O ritmo do meu caminhar parece estar mais lento do que o desfile da mulher que rebola logo ali.

Bom-diiaa! — diz ela, com uma voz aguda.

Um tremor percorre pelo meu corpo. Droga! Olho para o meu lado esquerdo, finjo que nada ouvi. Não quero que a atenção dela fique em mim por muito tempo. Eu caminho rápido. Mais rápido. Mas algo ainda me persegue.

O seu riso. Hahahahahahahaaaa…

A mulher solta uma gargalhada fina e arrepiante. Já estou mais à frente, mas sinto que ela está pendurada no meu ouvido.

Aquele som fica tamborilando no meu cérebro. Um arrepio toma conta do meu corpo como se eu precisasse escapar de um animal feroz.

Eu continuo o meu caminho e torço, pelo amor de Deus, que isso não se repita nas próximas manhãs.


Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *