2026
18:07
O sofá terracota abraça o meu corpo – sou absorvido por ele como a manteiga é absorvida pelo pão francês (cacetinho). Descanso as minhas pernas exaustas de tanto pedalar. O que antes era um lazer, agora virou o meu principal meio de transporte.
A luz dourada do final do dia encosta na minha pele e faz carinho. Me entrego às páginas do livro que repousa no tecido macio do sofá. Até então, meu hábito de leitura ficava confinado nas manhãs, porque é nesse período que eu encontro a minha concentração. Parece, no entanto, que as coisas estão mudando. Não acredito que é possível alterar a rotina desse jeito!
Veja bem, dói na alma quando as engrenagens do meu dia mudam com tanta rispidez. Se elas saírem um pouco do lugar, parece que nada funciona, de modo que eu prefiro perder o hábito do que alterar um pouquinho a minha relação com ele.
Quando casei e passei a viver uma nova vida cheia de estímulos diferentes, me convenci de que a principal vítima seria a leitura.
O caos cessou eventualmente. As panelas, os pratos e os móveis repousaram na rígida construção. A ansiedade e o cansaço da mudança findaram, então senti uma fome gritante de literatura. Meu estômago não parava de roncar.
Não tenho computador em casa, porque ele fica na minha loja de café – loja na qual eu passo os meus dias convencendo as pessoas a abandonarem o café tradicional de mercado. A loja está na minha outra casa, ou melhor, na casa dos meus pais. É um container amarelo que fica no terreno. De boa localização, facilita a minha vida na hora de atrair clientes do bairro e de outras estâncias de Florianópolis. Sem computador em casa e só com o celular para me entreter, prefiro ficar lendo. Uso o celular para atividades simples, mas prefiro entrar na internet quando estou no computador, assim tenho acesso completo ao mundo e à minha fazenda de Stardew Valley.
O meu dia termina desse jeito – chego em casa às 18h05, guardo a bicicleta na sala, tiro o e-reader do alforje e derreto no abraço confortável do sofá.
2010
Londres, chá, chuva, Coldplay, Doctor Who e Sherlock Holmes… se fosse possível resumir o ano de 2010 na internet – e na minha vida – seria assim.
Eu ainda morava em Erechim, no Rio Grande do Sul, uma cidade planejada que imita o centro de Paris. Todas as manhãs eu acordava cedo para pegar o ônibus e ir até a faculdade de jornalismo, em Passo Fundo. O frio doía e o sono me consumia.
Uma colega havia voltado de Londres recentemente. Era uma mulher viajada, que até fez intercâmbio para a Espanha através da universidade na qual estudávamos. Eu, por outro lado, mal conhecia o lado de fora de casa.
Numa das conversas de intervalo ela comentou sobre como os britânicos costumam beber chá com leite. Fiquei surpreso com aquilo, porque não conseguia imaginar essa mistura dando certo.
Ao voltar para casa, perto das 13h, abri o notebook e pesquisei sobre o tal de chá com leite. Os textos dos blogs explicavam que o chá preto era usado para criar essa combinação inusitada.
Por graça divina havia uma caixinha fechada de chá preto na despensa da casa. Como eu precisava me concentrar para escrever o roteiro de um programa de rádio que deveria ser entregue naquela semana, apostei nele para esquentar as minhas mãos e mente.
Foi estranho. Não era a mesma coisa que café com leite, mas ao mesmo tempo tinha um sabor curioso – era algo que o meu paladar parecia querer mais.
2026
11:53
Chá preto é complicado. Minha única experiência até então havia sido com aqueles chás de saquinho do mercado, que tem notas sensoriais de churrasqueira molhada após um dia de chuva.
Decidi que, se eu quisesse conhecer o verdadeiro sabor do chá preto, deveria encontrar uma marca de qualidade com um custo-benefício aceitável. Descobri a Amaya Chás, que fica localizada em Registro – SP. Um novo hábito começou e eu substituí o café por chá preto de manhã e após o almoço.
É estranho dizer que eu bebo chá no café da manhã. O que é isso? Ele tem uma loja de café, mas não bebe o próprio café? Calma lá! Acontece que eu estou vivendo um experimento, um teste, um mergulho de dedos nas águas do rio. Digamos que eu esteja aberto a novas experiências! Percebi que o chá preto no café da manhã refresca o paladar e dá uma sensação de aconchego que passa pelo corpo todo.
Desde a minha última publicação, decidi de forma consciente que precisava dar um tempo na escrita. Fiquei estagnado – acontecimento recorrente – e imaginei que uma longa pausa seria ideal para voltar revigorado. Não planejei, no entanto, ficar parado por quase dez meses.
Não estive ocioso, só foquei em outras atividades menos artísticas. Minha loja de café exigiu mais da minha atenção e tempo, o que fez com que a minha arte ficasse em segundo plano.
Nesses últimos dez meses, diariamente, às 11h53, eu coloquei a chaleira para esquentar, fiz o meu chá preto e deixei Buffy: A Caça-Vampiros rodando na TV. Depois de rever a série por completo e o spin-off Angel: O Caça-Vampiros, decidi assistir Arquivo-X pela primeira vez.
Beber chá, escrever crônicas, ler sentado num sofá terracota, andar de bicicleta, fazer arte e não fazer arte, assistir séries dos anos 90 – este conjunto de hábitos traçou o caminho para que eu voltasse a este espaço, revigorado, com novas histórias pra contar.
16:12
Estou sentindo a brisa do outono entrar pela janela.
17:59
A distância entre a loja de café e a minha casa é de 5 a 7 minutos na bicicleta. Apesar do caos que é sair contra o horário de pico lotado de pedestres, motos e ciclomotores (em alta velocidade na ciclovia), o trajeto, apesar de cansativo, é rápido.
Me sinto um vencedor quando pedalo rapidamente até o meu destino enquanto uma fila quilométrica de carros espera pela vez. O trânsito não anda, as pessoas estão estressadas, não atinando que a grande culpada é essa caixa de metal que as isolam da sociedade, que as deixam raivosas, que as tornam predadoras.
Ao entender a minha posição na sociedade como uma pessoa que anda de bicicleta, comecei a cultivar um ódio maior pelos carros e pelo comportamento dos seus donos. Essa raiva foi reforçada após a leitura do livro Life After Cars: Freeing Ourselves from the Tyranny of the Automobile (Vida Depois dos Carros: Libertando-nos da Tirania do Automóvel). Não me culpe se você me vir achando graça quando alguém levar trinta minutos para chegar ao destino que deveria ser de cinco.
Foram necessárias algumas semanas até eu perder o medo de costurar o caos com a bicicleta. Acredito que um pouco de medo, no entanto, é bom; o medo me mantém atento e cuidadoso. Dois anos atrás, quando pensei que era invencível na minha bicicleta nova, tive uma queda feia que poderia ter resultado em algo muito pior do que os cortes no joelho e as cicatrizes.
Eu tricoto o caos, mas mantenho o novelo sob controle.
18:05
Escrever é difícil. Por esse motivo, talvez, vejo como uma necessidade me afastar dos textos de tempos em tempos. Voltar a escrever, porém, dá um ânimo tremendo! Consigo enxergar as possibilidades, sabores e texturas a colocar entre as palavras.
É a forma mais desafiadora de arte que eu já me propus a fazer. É a arte pela qual consigo revisitar o passado e desvendar o mistério da memória sob uma nova ótica. É nela que os meus segredos estão guardados – só revelados para quem é bom entendedor.
Escrever é como a infusão de um chá. Preciso deixá-lo ser, existir em si, para então remover as folhas que criam o amargor. Nada a mais, nem a menos – o suficiente.


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