Categoria: Crônica
-
do mar; Correspondência
“Enquanto isso, Melquíades acabou de plasmar nas suas placas tudo o que era plasmável em Macondo e abandonou o laboratório de daguerreotipia aos delírios de José Arcadio Buendía, que tinha resolvido utilizá-lo para obter a prova científica da existência de Deus. Mediante um complicado processo de exposições superpostas, tomadas em lugares diferentes da casa, estava…
-
Larvas em pêssegos maduros
Sinto falta da emoção que é estar por trás das cortinas de um palco. Crianças enfileiradas na escadaria segurando os violinos perfeitamente posicionados para não dar vexame, porque tudo ali é uma cerimônia. As camisetas brancas grandes demais para os pequenos corpos, estampadas com o logo da orquestra sinfônica naquela estética específica do início dos…
-
O oceano tem fim
Pudera eu enterrar as referências pelas quais moldei quem eu sou. Pudéssemos nós apagar da memória as coisas ruins que nos fizeram, ou as que fizemos aos outros. Poderíamos ser essa caixa vazia de imaginação, de retalhos sem sentido, que é plástica, sebosa e frívola. Não somos nada disso. A condição humana não nos permite…
-
Pedala, vagabundo
É com grande pesar que anuncio a morte da minha mais adorada bicicleta amarela. Num final de semana qualquer, em uma decisão que custou a sua vida, decidi subir uma ladeira. Compartilhando fuligem com os carros, tomando lapadas de areia no rosto e trocando inutilmente as marchas deterioradas por duas décadas sem manutenção, o esforço…
-
Ensaio de um apocalipse
Embora a corrente do rio nunca falhe, a água que passa, momento a momento, nunca é a mesma. As correntes formam bolhas na superfície, que estouram e desaparecem à medida que outras surgem para substituí-las, nenhuma durando muito. Neste mundo, as pessoas e suas moradias são assim, sempre mudando. — Retratos de Minha Cabana. Kamo…