Categoria: Crônica

  • Estradas-cruzadas

    Estradas-cruzadas

    Estradas de terra ocorrem sob os pés. Trocam de pele conforme o clima e reforçam o perigo que é estar na natureza: pois não deveria andar nela num dia atormentado pela chuva. E lá vai ele o cidadão com o seu carro a patinar pelo barro vermelho, sem enxergar qualquer coisa na frente dos olhos,…

  • Morrer fazendo café

    Morrer fazendo café

    Não sei se é possível morrer fazendo café. Imagino que dê para morrer fazendo qualquer coisa, basta se esforçar. Aprendi com a série A Sete Palmos que a morte está na esquina, sendo suficiente um peteleco do acaso para arrebatar uma alma distraída. Morrer é uma certeza absoluta e eu tento gerenciar as minhas expectativas perante a…

  • Numa alameda ectoplasmática

    Numa alameda ectoplasmática

    Sim, vi, a mim mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto – quase delineado apenas – mal emergindo, qual uma flor pelágica, de nascimento abissal… E era não mais que: rostinho de menino, de menos-que-menino, só. Só.   — João Guimarães Rosa, Primeiras estórias…

  • do mar; Correspondência

    do mar; Correspondência

    “Enquanto isso, Melquíades acabou de plasmar nas suas placas tudo o que era plasmável em Macondo e abandonou o laboratório de daguerreotipia aos delírios de José Arcadio Buendía, que tinha resolvido utilizá-lo para obter a prova científica da existência de Deus. Mediante um complicado processo de exposições superpostas, tomadas em lugares diferentes da casa, estava…

  • Larvas em pêssegos maduros

    Larvas em pêssegos maduros

    Sinto falta da emoção que é estar por trás das cortinas de um palco. Crianças enfileiradas na escadaria segurando os violinos perfeitamente posicionados para não dar vexame, porque tudo ali é uma cerimônia. As camisetas brancas grandes demais para os pequenos corpos, estampadas com o logo da orquestra sinfônica naquela estética específica do início dos…

  • O oceano tem fim

    O oceano tem fim

    Pudera eu enterrar as referências pelas quais moldei quem eu sou. Pudéssemos nós apagar da memória as coisas ruins que nos fizeram, ou as que fizemos aos outros. Poderíamos ser essa caixa vazia de imaginação, de retalhos sem sentido, que é plástica, sebosa e frívola. Não somos nada disso. A condição humana não nos permite…