Não sei se é possível morrer fazendo café. Imagino que dê para morrer fazendo qualquer coisa, basta se esforçar. Aprendi com a série A Sete Palmos que a morte está na esquina, sendo suficiente um peteleco do acaso para arrebatar uma alma distraída. Morrer é uma certeza absoluta e eu tento gerenciar as minhas expectativas perante a sua iminência. Eminência. Quando a minha cafeteira italiana explodiu naquela manhã quente, encarei a morte na sua mais tragicômica faceta.
Um pouco mais de dez anos atrás, uma tia comentou comigo sobre o delicioso café produzido pela cafeteira italiana. Moka, para os íntimos – não confundir com a mocha, bebida à base de café, leite vaporizado e calda de chocolate. Prefiro chamá-la do que ela é: uma cafeteira de origem italiana. Todo o resto é só para complicar. Até então, eu fazia o meu café usando o brasileiríssimo coador de pano.
A Moka Express foi patenteada nos anos 30 por Luigi De Ponti em nome de Alfonso Bialetti e até hoje é um clássico que está presente nas casas de milhares de pessoas ao redor do mundo. Seu design charmoso e sua praticidade são tão icônicos, que você encontra réplicas do produto em qualquer loja de utensílios domésticos. Quem popularizou a Bialetti foi o filho de Alfonso, Renato Bialetti, que criou o símbolo da empresa na década de 50 – um personagem que era a caricatura do pai. Renato morreu em 2016, aos 93 anos, e suas cinzas foram colocadas em uma réplica gigante da inconfundível cafeteira.
Morte. Seus suspiros sombrios nos acompanham a todo instante.
Em 2014 eu era um jovem tropeçando pela vida, morando em uma quitinete que mal dava para levantar os braços sem socar o teto. Meu modo de viver era simples e a rapidez, fundamental. Imaginei que uma cafeteira italiana resolveria essa questão, dada a sua instantaneidade. Comprei a mais barata da loja e assim comecei a minha jornada ao encontro da morte.
O sol batia quente pela janela. Meus dias eram regados de suor em ebulição. Logo mais, às 8h30, eu tinha de estar na faculdade para iniciar mais um trabalho. A pressa era constante. Havia usado a cafeteira nova em algumas ocasiões, sem problema algum. Mas ela era assustadora. Fazia um barulho ensurdecedor de assobio em cima do fogão e jorrava água fervente de maneira compulsiva. Deve ser assim mesmo, eu disse para mim, porque nunca tinha visto uma cafeteira italiana em ação. Pesquisar na internet nem passou pela minha cabeça. No final do atribulado processo, o café sempre saía quente e intenso. Estava dando certo, ora.
Naquele dia, em meio aos gritos da cafeteira, eventualmente eu levantava a tampa e conferia o processo, a fim de saber quando seria o melhor momento para desligar o fogão. Olhei uma vez e nada aconteceu. Duas vezes, um pouco de café. Três vezes, mais um pouco. Ao me afastar para pôr a mesa, ouço uma explosão.
Meu coração já estava na rodoviária comprando passagem para partir.
Parecia a cena de um crime. As paredes, que antes eram brancas, vestiam os respingos marrons da vítima. A superfície do fogão fazia as vezes de um cemitério para a borra do café. O chão abrigava os estilhaços metálicos da finada cafeteira.
Segundos me separaram de um destino irreversível. É um trauma que carrego até hoje.
Em 2020 eu abri uma loja de café, e com a responsabilidade de vender um produto de qualidade, precisei estudar. Foram horas de testes para entender como cada método de preparo possibilita uma experiência única na xícara. Café de qualidade é complexo, e por mais que isso pareça coisa inventada, depois de um tempo você passa a notar a diferença. É como uma obra de arte. Não espere que um café feito na máquina automática de cápsulas seja a mesma coisa que um café artesanal moído na hora e preparado pelas mãos de um ser humano.
Explorei cafeterias e adquiri minhas próprias ferramentas para extrair o máximo do sabor e entender as nuances dos cafés especiais. Mas faltava uma coisa: a cafeteira italiana. Por mais que eu pesquisasse, não encontrava lugares que servissem café preparado nela, e eu tinha medo de comprar uma qualquer que repetisse a explosão de dez anos atrás. Eu só faria café com esse método novamente se fosse numa Moka Express da Bialetti – Made in Italy.
Quando a removi da caixa logo notei a diferença: belíssima, construída com detalhes que nenhuma réplica conseguiu imitar. O pictograma marcante do omino con i baffi (o homenzinho com bigode) marcado em uma das faces de alumínio da cafeteira deu uma sensação de segurança. Ela não vai explodir, pensei. Um marketing bem feito? Será que um raio cairia duas vezes no mesmo lugar se eu tivesse comprado outra moka piratona? Impossível saber. Decidi confiar no que é caro e se vende como original. Afinal, por que um homem de bigode mentiria?
Imagino que o sentimento da eternidade seja o mesmo de esperar o café brotar do tubo central da cafeteira italiana. Não me aproximo, de modo que espio o processo de longe, como um animal espreitando a presa. Mas a presa ali sou eu, que espero a morte me consumir a qualquer momento. O coração bate forte até os primeiros suspiros de café expelirem seu perfume.
O ar é consumido pelo aroma de casa da vó. De interior. De manhã de inverno. É um cheiro que me leva aos momentos mais seguros da vida. Meu coração para de saltar dentro de mim. Um sabor entorpecente. Intenso, que afaga a alma; dança na coreografia dos sentidos. Acalma, protege – entrego-me a ele.
E a morte? A morte tenho certeza que virá de outro jeito.


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