do mar; Correspondência

“Enquanto isso, Melquíades acabou de plasmar nas suas placas tudo o que era plasmável em Macondo e abandonou o laboratório de daguerreotipia aos delírios de José Arcadio Buendía, que tinha resolvido utilizá-lo para obter a prova científica da existência de Deus. Mediante um complicado processo de exposições superpostas, tomadas em lugares diferentes da casa, estava certo de fazer mais cedo ou mais tarde o daguerreótipo de Deus, se existisse, ou acabar de uma vez por todas com a suposição da sua existência.”

— Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão, p. 56-64. Rio de Janeiro: Record, 1996.

À tardinha do domingo recebi uma correspondência. Estava no envelope que vinha do mar. Despi-o, revelando o papel contido dentro. As palavras eram ondas que se quebravam nas minhas mãos, e eu fiquei embebido de água salgada e pôr do sol. 

O mar falou das pessoas que caminhavam nele, pulavam suas ondas, mergulhavam fundo, bebiam um pouco do seu suor. O mar disse que era imensamente grato pelas crianças que brincavam perto dele, das pessoas apaixonadas abraçadas no calor da sua água vermelha de fim de dia. O mar gostava de ouvir o bate-papo, as fofocas, as músicas. O mar gargalhava sempre que o senhorzinho passava com o carrinho Biro Biro Drinks e dançava para conquistar a clientela.

O mar disse ainda que as luzes amarelas dos restaurantes à noite davam um brilho especial e que ele amava vê-las ganhando vida nos verões – o povo alvoroçado, os idiomas distintos misturados como um coquetel, os apertos de mão, o cheiro de peixe frito; de maresia no ar. Tudo aquilo o mar amava observar. 

O mar contou sobre quando sua vida era vazia; uma constante ida e volta e nada mais a acrescentar. Não tinha nada para ver senão a escuridão e a luz da lua que o deixava prateado. E, então, os animais começaram a ocupar seus espaços, os seres humanos deixaram suas primeiras pegadas na areia, e tudo ficou tão bonito, tão cheio de voz e calor.

Assim como o mar me enviou suas palavras escritas em ondas, eu queria que ele recebesse uma resposta mostrando como eu o vejo. Peguei a minha câmera fotográfica e fui até ele.

Senti a areia no toque da pele e a noite chegando. Molhei os pés na sua água convidativa. Fui acariciado pelas ondas baixinhas que mal chegavam nas canelas. Olhei as pessoas fazendo a mesma coisa. Vi as famílias rindo, se divertindo, vivendo como quem não precisava se preocupar com o escritório no dia seguinte, porque era assim que deveria ser. Fui guardando cada uma dessas cenas mágicas na minha câmera. Silhuetas congeladas no tempo; de gente que continuará sendo sempre jovem, sempre idosa, sempre criança.

Revelei as fotos e as selei no envelope. 

Na agência dos Correios me perguntaram o destinatário, ao passo que falei que era o mar. A funcionária olhou, sorriu e colou um selo especial que mostrava o lindo desenho minúsculo de ondas azuis sob o sol amarelo. O papel da carta se transformou numa coisa gelatinosa, e aos poucos ganhou tons esverdeados, mudando o seu formato, virando uma alga.

Observei aquilo atônito. 

— O prazo de entrega é de 15 dias — disse a mulher de amarelo e azul atrás do balcão sem demonstrar qualquer sinal de espanto.

Em casa, sentado à mesa, olhei as cópias das fotografias como quem observa através de pequenas janelas que mostram algo além. É este o poder da fotografia: de arrancar o cotidiano do espaço para fixá-lo nas paredes da memória. Não é eterna, pois tudo algum dia se vai, como as ondas do mar que desmancham na praia.

Anos mais tarde recebi uma resposta do mar. Nem lembrava mais das palavras que trocamos tanto tempo atrás. A voz da água disse que percebeu a minha presença nas fotos mesmo eu não estando nelas. Você é as suas fotos, completou. 

Aquilo vibrou na minha pele. Sim, minha presença estava contida em cada uma daquelas imagens – registros do passado vividos no lado oposto da lente. Na fotografia se analisa a cena contida  num retângulo limitado, mas se esquece de botar na balança o peso da bagagem de quem decide preservar o tempo; o que levou àquela foto acontecer? 

A presença do fotógrafo é meramente uma passagem fantasmagórica. Há um motivo para ele – eu – não fazer parte da cena exposta à luz congelada no retrato: pois é de pouca importância para quem vê estar ciente do autor. Embora o mar estivesse correto em perceber a minha estadia nos recantos do visor, meu objetivo era escrever crônicas visuais sobre histórias anônimas; de silhuetas, de pessoas sem rosto. 

Lembrei de José Arcadio Buendía, em Cem Anos de Solidão, tentando provar a existência de deus através do seu daguerreótipo. Deve ser frustrante tentar encontrar algo que você não sabe como é. Deus pode ser o próprio mar, o céu, as luzes incandescentes dos restaurantes vazios, o calor da noite soprado pelo vento. Ou deus pode ser a presença invisível de um desconhecido.

Mais tarde enviei as minhas divagações em resposta ao mar, que não confirmou nem negou o que eu supus sobre ele ser o próprio deus. Ele mesmo não parecia ter certeza. Afinal, quem tem certeza absoluta da própria identidade?

Quando eu penso sobre o mar, penso na cultura que o cerca. Não o vejo como um elemento separado da essência humana, assim como não me vejo como parte desassociada da natureza. Somos vizinhos em convívio mútuo. Cidades se formaram a partir do mar, comunidades inteiras existem por causa dos seus ensinamentos, arte é criada porque alguém se inspirou nas suas ondas que declamam poesia.

Naquele final de dia no qual eu fui até a praia registrar crônicas visuais do acaso, compreendi que a nossa presença, e os universos contidos em nós mesmos, precisam estar em sintonia com os movimentos naturais da vida. É com essa linguagem tão poderosa que podemos entender o que o mar nos diz; é assim que nos transformamos de meros espectadores para atores ativos da existência humana na Terra. Nós, que estamos tentando viver em meio a tudo o que está posto no mundo, não somos os vilões dessa história.

Se o mar é deus, se o mar não é deus; nada disso importa. Acredite no que conforta o seu coração. O mar somos todos nós: uma linguagem de ondas, palpitações, pensamentos; de fotografias, música, comida boa, maresia. De texto escrito no papel. Do mar; os peixes. Do mar; as ondas. Do mar; o amor. Do mar; tudo o que somos. 

Do mar; correspondência.

Fotografias © Jonathan Holdorf – Todos os direitos reservados


Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *