Autor: Jonathan Holdorf
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Numa alameda ectoplasmática
Jonathan Holdorf © Sim, vi, a mim mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto – quase delineado apenas – mal emergindo, qual uma flor pelágica, de nascimento abissal… E era não mais que: rostinho de menino, de menos-que-menino, só. Só. — João Guimarães Rosa,…
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do mar; Correspondência
“Enquanto isso, Melquíades acabou de plasmar nas suas placas tudo o que era plasmável em Macondo e abandonou o laboratório de daguerreotipia aos delírios de José Arcadio Buendía, que tinha resolvido utilizá-lo para obter a prova científica da existência de Deus. Mediante um complicado processo de exposições superpostas, tomadas em lugares diferentes da casa, estava…
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Tempestade de morcegos
A noite tempestuosa não era boa companhia para o pequeno Alfredo. Seus olhos permaneciam abertos, alertas, atentos com o som dos coices raivosos do vento. As telhas da casa miúda estremeciam ansiosas no telhado. Qual destino teriam se fossem levadas montanha abaixo? Talvez atingissem algum carro estacionado, ou talvez tomassem um rumo mais mórbido, quebrando…
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Larvas em pêssegos maduros
Sinto falta da emoção que é estar por trás das cortinas de um palco. Crianças enfileiradas na escadaria segurando os violinos perfeitamente posicionados para não dar vexame, porque tudo ali é uma cerimônia. As camisetas brancas grandes demais para os pequenos corpos, estampadas com o logo da orquestra sinfônica naquela estética específica do início dos…
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O oceano tem fim
Pudera eu enterrar as referências pelas quais moldei quem eu sou. Pudéssemos nós apagar da memória as coisas ruins que nos fizeram, ou as que fizemos aos outros. Poderíamos ser essa caixa vazia de imaginação, de retalhos sem sentido, que é plástica, sebosa e frívola. Não somos nada disso. A condição humana não nos permite…