O som da TV é abafado pela divisória de madeira que remove da realidade o pequeno quarto escuro. Uma novela e seus diálogos? O Jornal Nacional perto do “boa noite”? O narrador de futebol gritando “olho no lance!”? Quem há de saber… O mundo que existe além das paredes finas parece não importar.
As cigarras cantam alto, os grilos fazem companhia ao mato e às aranhas; o cascalho no chão é seco. Eu quero que chova, estou suando – minha camiseta está úmida. A luz do ambiente é fraca, amarelada, daquelas incandescentes. Mal consigo discernir o que está escrito no papel que seguro nas mãos.
O cheiro que sobe do encarte é pungente, mas não causa enjoo. Me convida a querer mais, não me afasta. É um cheiro de… memória. Quando me lembro dele, consigo perceber a nostalgia – se é que ela tem algum aroma.
Tiro o disco prismático da caixinha acrílica, largo o encarte ao lado – na cama – e o insiro no reprodutor de CD. O som mecânico é conhecido, é comum, é pertencente à época em que vivia. Não parece retrô – é o que é. Ele demora a identificar as músicas e engasga. Tenta. Enquanto tenta, torno a folhear o encarte como alguém que visita o enredo de um livro de fantasia. As ilustrações surrealistas, os homens fazendo pose com seus instrumentos, o personagem Eddie arrancando do seu corpo uma criatura plasmática – o sétimo filho do sétimo filho. E a música toca, surreal. Infinite Dreams.
Mais tarde as trovoadas atravessam os fones de ouvido, compondo a canção. Eu carrego o discman e vou lá fora, vejo os primeiros pingos e os vagalumes piscando alertas no céu, como se fizessem parte da tempestade. O solo ganha crateras das gotas gigantescas que começam a bombardear a poeira. O cantor, na minha mente, fala que o infinito é difícil de se compreender.
Infinity is hard to comprehend.
A casa de veraneio encosta no céu. A pequena cidade de Piratuba, no oeste de Santa Catarina, é cercada de morros e tão úmida no verão que o centro – uma avenida que cruza toda sua extensão – vira uma fornalha. Para não sofrermos com frequência, descíamos apenas uma vez no dia para fazer as compras de mercado e visitar as lojas.
Da rua é possível ver o oceano de possibilidades pela vitrine. Centenas de CDs alinhados, estáticos, com as diversas capas e sonoridades contidas em circunferências de encantos. Meus dedos saltitam, deixando para trás as bandas que não me interessam, buscando incessantemente o tesouro escondido.
Naquele ano, um primo me apresentou à banda Helloween com o álbum Rabbits Don’t Come Easy e eu amei o som veloz do metal melódico.
Minha busca parece inútil. É claro que eu nunca encontraria um CD do Helloween numa loja do interior de Santa Catarina. Meu primo era de Campinas, São Paulo; lá as coisas tinham a tendência de existir com mais facilidade.
Frustrado, pensei que seria melhor procurar outras bandas, descobrir outros sons, investigar outras melodias e ser surpreendido. Afinal, dessa forma eu poderia ouvir algo inédito e tirar minhas próprias conclusões. Criaria uma conexão especial com aquele dia e teria um CD que não somente guardaria as memórias daqueles que o compuseram, mas também as minhas.
Meus dedos finos continuam a investigar. De repente, uma capa desperta a minha atenção: a ilustração de uma jovem bruxa de lingerie mexendo a poção mágica num caldeirão borbulhante. Algumas abóboras sorridentes estão presas em gaiolas, outras marinam no líquido de cocção misteriosa. A mulher trabalha em sua masmorra, iluminada por intensas tochas chamejantes. No canto superior esquerdo, a minha alegria: Helloween. O logo tão marcante preenche a minha visão. Better Than Raw. Não era Rabbits Don’t Come Easy, mas era Helloween, e eu precisava levar aquele CD.
Ouço o álbum completo e sinto a minha vida mudar ali mesmo. Escuto-o tantas vezes que o encarte sofre, rasga, dobra, vive. É como um livro tantas vezes lido que se torna um órgão de quem o manipula. É um baú de histórias, de memórias profundas. Guarda em si, na caixinha acrílica toda riscada, uma vida de vinte anos atrás.
Casar e morar com outra pessoa de interesses semelhantes lança um olhar investigador ao passado de ambos – procuramos conhecer quem éramos quando crianças e adolescentes, vemos as fotografias de um passado quando a distância da vida adulta dava a impressão de ser infinita. Nossos CDs, como marcas sentimentais de quem éramos, de quem somos e como existimos, aprofundaram as conversas sobre ir a lojas físicas e garimpar os discos perdidos.
Aos poucos fui lembrando do que deixei para trás. A banda Helloween tinha sumido do meu repertório, enterrada por algum motivo desconhecido. Vergonha do passado?
Mas quanto mais eu pensava e conversava com a Bruna sobre isso, mais eu queria saber: o que aconteceu com Helloween? E eu ainda teria interesse em ouvir suas músicas?
Vasculhei a infinitude da internet e vi que eles lançaram um álbum novo, Giants & Monsters, ilustrado de maneira fantástica com uma pintura impressionista. Fiquei deslumbrado pelas canções do disco.
Quando a Bruna viajou para a casa dos pais, decidiu parar em uma loja de CDs e vasculhou com os seus dedos a coleção. Eu fingi que estava presente enquanto ela me mandava fotos das opções. Outra vez, a surpresa: a loja tinha um CD do Helloween que eu nunca tinha ouvido, e também o álbum do Iron Maiden The X-Factor que eu já tinha, mas foi quebrado quando o emprestei.
A partir de então, entramos na missão de comprar um CD Player, porque queríamos ouvir o recém-adquirido My God-Given Right do Helloween. Quando o aparelho chegou, corremos e pegamos todos os nossos álbuns antigos para testar. Será que funcionam? Será que não estão riscados, mofados ou será que não se esqueceram da sua função? E se suas memórias foram apagadas? E se os CDs se recusassem a tocar, afinal, nós os negligenciamos por tanto tempo?
Eles funcionaram, é claro.
O que também funcionou foi sentar e ouvir um CD nunca tocado e apreciá-lo pela sua limitação física e seu encarte com letras pequenas de fonte ilegível.
Os meus CDs sobreviveram a mudanças, desgastes e poeiras. Sobreviveram ao meu desejo imenso de me livrar de todas as coisas que já não serviam mais, como se o único propósito de se ter um objeto fosse a sua utilidade, como se ele não pudesse reservar espaço para uma lembrança. Os meus CDs, nas suas diversas casas e maneiras de ser apresentados na estante, simbolizam aqueles anos de descoberta adolescente, nos quais eu comprava o álbum com o dinheirinho contado e o escutava à exaustão.
Os CDs também eram moeda de troca. Meu colega da escola, o André – um cara alto, cabeludo, ornado de colares prateados e anéis de caveira – ia à minha casa religiosamente com a sua coleção de originais na mochila. Passávamos a tarde observando os encartes e conversando sobre as bandas e as músicas. Numa dessas, acabei trocando o Better Than Raw por um original do Iron Maiden raríssimo que eu ainda não tinha. Triste, eu sei. Hoje me arrependo. Mas essas situações não pareciam tão finais enquanto aconteciam. Era a vida sendo vivida – amigos trocando CDs – e na hora parecia uma troca justa. Hoje, o Better Than Raw teria uma força ainda maior se eu pudesse ouvi-lo e dar-lhe vida outra vez.
Com aplicativos de streaming, esse cuidado com o objeto não existe. O aparelho que reproduz as músicas é um retângulo com som perfeito nos fones de ouvido. As opções no aplicativo são infinitas e difíceis de compreender. Por isso eu parei de escutar música por tanto tempo.
Essa atividade, antes, era uma pausa – eu não fazia outra coisa. Não dava para ouvir CD caminhando por aí, porque o meu discman não era antichoque, ou seja, as músicas pulavam ao menor movimento. Restava sentar e folhear o encarte, tentar entender o que as letras queriam dizer, conferir as andanças da vizinhança, ou simplesmente fechar os olhos e deixar que os sons criassem um próprio mundo nos meus pensamentos.
Ouço música como leio: com presença. Um álbum é apreciado pela sua composição completa, assim como uma exposição de fotografias é unificada pela sequência narrativa. Sozinha, parece pequena. No conjunto, com atenção, se transforma numa história.
Cansado de conviver com o suspiro do robô no meu cangote, concluí que comprar um CD Player e escutar os meus CDs seria a melhor forma de voltar a ouvir música, apertando os botões físicos e acompanhando o encarte com diagramações estranhas, artísticas e conceituais. Sentir o cheiro do papel e voltar no tempo. O mesmo cheiro, único, pungente, que não dá vontade de largar. Como o cheiro do livro novo, o cheiro do velho CD convida a experimentar um mundo desconectado, no qual as opções são limitadas e as ferramentas são o que são – ferramentas.
A cabeceira de madeira marca as minhas costas. Infinity is hard to comprehend. É inverno, o vento é forte lá fora, mas não importa; memórias de verão voltam à tona, se misturam, contam diferentes histórias, rebobinam, inventam e me confundem. Preciso conviver com o que lembro do passado. Alguns CDs nem sei quando comprei ou como estão comigo.
Há um perigo, no entanto, em consumir mídia física no lugar de consumir o algoritmo. As opções continuam infinitas, pois na internet todos os CDs físicos do mundo estão a um clique de virar fatura no cartão. Meu objetivo é ter uma experiência: ouvir os álbuns que já possuo e comprar novos (e usados) conforme a necessidade surgir – de preferência que não seja uma necessidade vinda da pura vontade de comprar.
Ouço as músicas apreciando cada acorde, de forma confortável, sem outras distrações, no meu ritmo, antes de dormir ou de manhã cedo, ou enquanto sinto o cheiro de café sendo passado. E se for necessário pausar, é só apertar o botão que a música para. Ela espera. Mas o CD continua girando. Do mesmo jeito que as palavras da página são silenciadas quando o livro é fechado, a música aguarda que o play seja pressionado para então tudo voltar a acontecer.
Ela não tem pressa.


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