Era dia de verão e Albino estava embriagado.
Podia-se ver nos olhos a languidez; na fala atrapalhada os tropeços de uma mente em guerra consigo mesma.
Imgart, a esposa de Albino — ou Imi, como a chamavam desde os tempos de menina — suava, desesperada ao preparar o almoço.
Mesmo em dias de calor como aquele, o costume era tomar uma sopa para forrar o estômago: uma canja de galinha com massa fresca caseira e arroz branco.
Imi não imaginou que Albino ficasse bêbado naquele domingo, pois mal tinham voltado da igreja. O marido, com seus olhos azuis e uma cabeça brilhante de calvície, exibia um tom encarnado no rosto, que fazia a cena ser tão cômica quanto constrangedora.
As visitas se sentaram ao redor da mesa comprida posta na varanda da casa, porque assim algum vento podia bater e expulsar as moscas que já faziam fila.
— Quem senta na ponta paga a conta — disse Albino. Sentado na ponta, o homem molhou o pão caseiro na sopa quente. Lambia os lábios oleosos e os dedos grossos de quem trabalha na lavoura, soltando estranhos sons de prazer.
Quando todo mundo já estava satisfeito e suando em bicas por causa da canja, Imi decidiu que era hora de servir o prato principal.
Arroz, batatas, carne assada, um molho gorduroso, salada e couve-flor à milanesa.
Albino estava em polvorosa. Serviu-se de alguns pedaços de carne, de arroz, nada de salada, de algumas batatas e, claro, de couve-flor. Todos fizeram o mesmo e comeram com bastante entusiasmo enquanto conversavam sobre amenidades.
— Troco por carne! — Albino exclamou.
Todo mundo levantou a cabeça e olhou para ele.
— Troco por carne! — repetiu, dando uma dentada na couve-flor frita.
As pessoas riram e continuaram almoçando. Ficava mais e mais evidente a total perda de consciência do homem. Imgart escondia o rosto tão vermelho de vergonha quanto o do marido pela cachaça.
— Se tivesse só isso pra comer, eu só comia isso. Nem preciso de carne. Troco por carne! — reforçou Albino pela terceira vez.
O almoço ficou silencioso e só foi quebrado com o som de uma forte tosse angustiante. Albino estava quase roxo.
— Albino! — gritou Imi. — Ele está se engasgando! — levantou-se num pulo.
Os homens saltaram de suas cadeiras para socorrer o pobre Albino, que ficava cada vez mais parecido com uma berinjela. Podia-se ver a vida querendo sair do corpo. Seus olhos estavam esbugalhados.
Após um lento e torturante esforço tentando espremer o corpo de Albino para que a carne fosse liberta, o projétil gosmento saiu voando pela boca, espatifando-se no chão com um som repugnante.
Albino começou a rir. As pessoas ao redor se entreolharam — aliviadas e assustadas. O que diabos aconteceu, pensaram em uníssono.
Albino voltou à mesa, pegou mais uma couve-flor e a mordeu com vontade.
— Troco por carne! — e continuou a comer até ver o prato vazio.


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