Estradas-cruzadas

Estradas de terra ocorrem sob os pés. Trocam de pele conforme o clima e reforçam o perigo que é estar na natureza: pois não deveria andar nela num dia atormentado pela chuva. E lá vai ele o cidadão com o seu carro a patinar pelo barro vermelho, sem enxergar qualquer coisa na frente dos olhos, atirando bravatas ao temporal. Ficasse em casa – sabia que choveria.

Não sei o que é pior, a escuridão que aflige os olhos e os cega momentaneamente ou a neblina que marca a presença do tempo. Tinha tudo para ficar em casa, mas escolheu sair. Agora aguente as consequências!

Mas viver é uma tigela de ações amargas que você mastiga porque precisa se alimentar. Não fosse por elas, teria poucas histórias para contar, mesmo que essas histórias tenham sido escritas por adultos inconsequentes, e você, pobre criança, é só uma passageira no banco de trás. Aperte os cintos, feche os olhos e reze.

As estradas deixam para trás a poeira que se dispersa. Para onde vão as pedras que rolam na noite? Será que ainda estão lá ou será que já se foram para longe, assim como eu? Nem mesmo algo tão rígido se mantém igual a vida toda. E dessa lembrança sobra a luz amarelada do farol, das cabanas de madeira assombradas pelas vidas que nunca farei parte.

Novas estradas se formam, unem-se por meios inesperados, como palavras que se completam nas cruzadas do jornal – artimanhas que só o tempo é capaz de concatenar. E lá estava eu mais uma vez na estrada, subindo um desfiladeiro às escuras, sem um destino visível. As imagens da janela são como ruídos de uma fotografia. Ao que tudo indica nada existe para além das dimensões daquele táxi.

O ronco do motor cessa. Chegamos. Faz muito frio, mas estou me sentindo em casa, como se o abraço das navalhas do inverno fosse aconchegante. O frio é branco; um lençol na frente dos meus olhos. Isso é um livro de Saramago? Estou ensaiando uma cegueira? Não. É só a serra me cumprimentando. Entre, ela diz. Fique à vontade.

O chalé flutua sobre o abismo acinzentado. Estamos andando sobre as nuvens. Um instante sem civilização, sem motos apressadas a entregar comida, sem vídeos infinitos na vertical rolando em uma tela que contém uma imensidão, e, ao mesmo tempo, contém tão pouco. A infinitude está lá fora – no ar, no som das árvores vivas, no rio que corre gelado, nos sapos que fazem coral debaixo da casinha de madeira.

As montanhas recebem o clarear tímido da manhã que nasce. Penso que a paisagem é favorecida pela falta de contraste que o sol teria imposto. As nuvens abraçam os picos esverdeados, o frio estapeia as minhas bochechas enquanto tento registrar o espetáculo com a minha câmera. Aqui os celulares são meramente ferramentas para captura da memória. Naquele momento do tempo, nenhum outro olho em todo o universo viu aquele amanhecer.

Preparo duas xícaras de café e pego a minha revistinha de palavras-cruzadas comprada especialmente para ocasião. Sabia que as horas passariam lentamente, e a solução seria pôr a mente a funcionar. A última vez que fiz qualquer exercício assim foi na adolescência, quando ir numa banca de revistas era algo comum.

A brincadeira tem textura e cheiro; estou imerso no presente, sentindo as coisas ao meu redor, sorvendo os minutos sem temer o tédio. Porque ficar entediado é quase um crime. Mas é aí que está a beleza de tudo: quanto mais tédio eu sinto, mais entediado quero ficar. Pode ser que eu esteja buscando refúgio na lembrança de uma vida que existia antes do apocalipse digital, pode ser que seja impossível existir numa realidade desconectada. Não sei muito bem o que eu estou fazendo, mas tenho tratado de ficar consciente das estradas em que ponho os pés.

Não preciso de permissão para ser bobo, para brincar, para andar de balanço, para falar as coisas bestas que vem na cabeça. Na natureza, no silêncio, não há quem julgue, não há alguém que diga “pare, você está passando vergonha”. É mais fácil abraçar a própria identidade quando existe liberdade. É mais fácil ser feliz quando há tempo para descansar. É mais simples uma vida que permite brincar.


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