Sim, vi, a mim mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto – quase delineado apenas – mal emergindo, qual uma flor pelágica, de nascimento abissal… E era não mais que: rostinho de menino, de menos-que-menino, só. Só.
— João Guimarães Rosa, Primeiras estórias (“O Espelho”).
Começou na escadaria da escola, antes de bater o sinal.
— É só uma brincadeira — disse o menino enquanto sufocava o pescoço do colega. Todos os dias a mesma coisa: soluços, falta de ar e lágrimas. O pesadelo parecia não ter fim. É só uma brincadeira.
Quantas humilhações alguém pode suportar a ponto de perder a própria identidade, a ponto de não ser mais uma criança doce e sensível — que preferia a amizade das meninas, porque os meninos falavam coisas odiosas e repugnantes? Por que esperam que um garoto seja macho quando ele mal tem consciência de si? O que é ser homem para essa gente?
Ser sensível era sinônimo de ser gay — do jeito pejorativo, para humilhar. E o medo constante de ser descoberto como uma aberração; por ser frágil, por gostar de arte, por preferir estar entre as mulheres, pois era com elas que se sentia seguro.
As mãos cadavéricas do passado continuam agarrando o seu coração dilacerado pelos anos deixados para trás. O que se vê é um fantasma da própria existência; irreconhecível, cercado de sombras. Nada mais que um espectro que se dissolve com o vento; invisível.
Quem é ele? Quando poderá novamente sentir-se seguro? Quando poderá o garoto pegar o ar na superfície? Lá, no fundo, na escuridão, não respira.
Na solidão de uma alameda ectoplasmática, o menino cresceu e rejeitou o mundo. Rejeitou-se a si, à aproximação, à vulnerabilidade, ao sol, ao calor do verão na pele, ao toque singelo da areia nos pés, às conexões. Seu mundo era em preto e branco, seu rosto deixou de ser gentil, seu caminho parecia cheio de obstáculos; cercado pelo horror de existir.
Seu espectro interior não suportava ser odioso. A alma gentil do menino clamava para emergir das profundezas. Já estava acostumado a viver como uma criatura das regiões abissais do oceano. Haveria qualquer esperança para ele? Conseguiria alcançar a luz?
Mas o que significava ser menino? Jogar futebol, brigar no recreio, falar das garotas como se fossem catálogos? Não conseguia se identificar com nenhuma daquelas características, e sentia-se um estrangeiro num grupo moldado a cuspir no chão, mijar de pé em qualquer canto disponível… e assediar. Como aquilo podia ser normal?
Seja homem, porque homem não chora. Guarde as lágrimas. Que vergonha. O que vai fazer em seguida — usar brinquinho? Ih, ele toca violino. Ih, ele usa anel. Ih, ele tem caneta em gel.
Ih, ele tem sentimentos.
Seja homem. Seja homem. Seja homem.
Três décadas interpretando um personagem numa peça de teatro que ele não pediu para participar — forçado a ser um conceito de pessoa moldada pelo roteiro de uma sociedade doentia, que prioriza os comportamentos produzidos em massa. Todo mundo tem que ser igual a todo mundo. Priorize o que vão pensar. Por favor, faça escolhas que não incomodem a ninguém.
Foram tantos verões perdidos, subjugado a acreditar que não era merecedor do sabor doce dos figos, preferindo a escuridão do quarto ao contato físico, com medo de ser notado. Ser percebido pelas pessoas significava estar exposto a novas humilhações. Nada mais vantajoso do que nunca aparecer em público e nunca retirar a máscara.
— Ele tem jeito de gay.
Mas ele não era gay. Mesmo assim todo mundo corria para julgá-lo; faziam fila para identificá-lo como algo, porque ao mundo uma pessoa só existe se tiver um crachá pendurado no pescoço. Por que não podiam deixá-lo em paz?
✹
Meus fantasmas não passam de vislumbres deixados pelo luto dos tantos eus que perdi ao longo do caminho. Finalmente, no reflexo do espelho, um reencontro: de feição frágil e olhar de caramelo, sou eu. De cabelos cacheados e um sorriso revestido de ternura, sou eu. Mais-que-menino. Não-só. Abundante.
Não posso reescrever o passado, mas sou o autor do meu presente e detentor do meu futuro. Abdico a identidade — qualquer imposição.
Minha existência extrapola palavras. Sou um ser que transborda arte, carinho, sensações. Sou a angústia de quem deseja viver. Sou o grito da infância perdida. E estou em todas as estações do ano, com seus aromas dançando no ar, e com todos os sentimentos que posso sentir e as texturas na pele e a sabedoria de alguém que sobreviveu para escrever estas palavras. Ufa! Estou livre.
Deixe um comentário