Essa é a água e esse é o poço.
Beba tudo e desça.
O cavalo é o branco dos olhos e o escuro dentro deles— Twin Peaks: The Return – Parte 8: Gotta Light?
De quem é a função de explicar arte?
Vejo com frequência comentários de quem precisa que o enredo seja explicado. “Isso daí é furo de roteiro” e levantam suas tochas em protesto. É da pessoa autora a função de dar na boca assim tudo mastigado? Já dizia David Lynch em sua célebre resposta quando instigado a elaborar sobre Eraserhead ter sido o seu filme mais espiritual: “não”. E termina aí.
55 filmes
Não sei o que despertou em mim a urgência de ver filmes em 2024. Em 2023 assisti apenas dois e achei demais. Pode ser que a roteirização com cheiro de fast food gorduroso tenha me causado náusea. Passei a ver os documentários da Agnès Varda, aos filmes do Almodóvar e fui abraçado pelo conforto dos filmes asiáticos aconchegantes. Pisquei e assisti a 55 filmes em seis meses.
A cobrança vem
Estou para ser contratado como redator. Enquanto espero o desenrolar vou adaptando a minha rotina matinal para encaixá-la no possível novo horário de trabalho. Academia, agora, às 6h20 da manhã. Acordo num salto e nem deixo meu cérebro pensar na possibilidade de faltar. Tem dado certo. Mesmo no frio, lá estou, já que independente da minha presença a mensalidade continua sendo cobrada no cartão.
Dias perfeitos
No caminho até a academia encontro um senhor de muletas que passa pela rua catando latinhas. Dou-lhe bom-dia e ele responde sorrindo. Vamos cada um para os nossos destinos.
Conto ou não conto?
Tomei coragem de reler os últimos manuscritos que iniciei. Começo as coisas — livros — e quando dou por conta estão jogadas de lado. Sem problema, já larguei mão dessa injusta pressão em mim mesmo. Faço arte por fazer, não por obrigação — sequer para ganhar dinheiro. Tem um recado na porta dizendo “não perturbe” sempre que dou na telha de me pressionar por algo que é para ser prazeroso.
Escrevi dois manuscritos de sessenta páginas cada e parei. Longe de finalizar qualquer um deles, mês a mês sou tomado pela vontade de pegá-los como leitor e avaliar se prestam para algo. Descubro um universo naquelas páginas que foi escrito numa onda inconsciente, vejo as referências ocultas e tudo parece ficar mais nítido. A magia do afastamento.
Eis a dúvida: continuo escrevendo até torná-los livros ou corto as rebarbas e os transformo em contos?
Inteligência Artificial
Fico contente com a falha genuinamente humana. Observo o erro que saiu por descuido como um dente que cresceu meio torto e não foi corrigido. Essa máquina plagiadora trouxe algo de bom: a apreciação pelos tropeços, pelas escolhas estéticas, pelas bagagens surradas, pelo inconsciente bagunçado.
Pela falta de explicação.
Por proporcionar sentimento — bom ou ruim.
A inteligência humana é feita de tricô e fuxico de vó, é o café que ficou doce demais, é a gema do ovo que ficou dura além do necessário.
A inteligência artificial é feita de plástico.
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