Qual é o tempo ideal de espera pela torta? Não me refiro à torta feita em casa, pois esta sabemos que leva mais de duas horas; a depender da complexidade ou da falta de habilidade da pessoa confeiteira, demora muito mais. Não. Quero dizer: quanto tempo devo esperar pela fatia a ser servida? Eis o conto trágico.
Florianópolis fazia seu aniversário e no fim de semana de celebração a cidade vira um circuito cultural com as mais variadas atividades: exposições, clubes de leitura, feirinhas com velas aromáticas e cafés adocicados pelas melodias da MPB. Nas andanças sentimos cheiro de fritura e seguimos o rastro como personagens de desenho animado com o nariz apontado para cima num transe.
Queríamos tomar um chai latte gelado, mas adivinhe só: quase todas as opções de cafeteria estavam fechadas; era feriado, ora bolas. Seguimos como galinhas tontas pela cidade: é por aqui; não, parece que é para lá. Ainda com o pensamento focado no cheiro que nos acelerava, o chai latte tornou-se notícia de ontem.
Quando o aroma da fritura chegou ao seu ponto alto percebemos que estava vindo de uma lanchonete lotada. A garota servia os cafés em desespero profundo e rodopiava tentando dar conta do evidente cenário caótico. Mas nós, galinhas coitadas, fomos em frente e pedimos uma porção de batatas fritas, uma fatia da torta de coco com quindim e um café espresso.
Sou tolo. Insisto em comprar doce ao sair de casa. Por que provoco tanta cólera em mim? Seria uma questão de autossabotagem? A torta majestosa exibe seus contornos dourados e altura de uma nobre condessa.
Sentamos nas banquetas desconfortáveis e esperamos. Esperamos. Ao fitar a moça que faz os cafés profetizamos que ela pedirá demissão na segunda-feira. Não aguenta mais. Tem como culpá-la? Meu traseiro está quadrado, mas tento manter-me empático, porque vejo o sofrimento. Espero. Eventualmente as batatas chegam e podemos beliscar, mas nada da torta e nada do café.
O tempo parece uma coisa só – as palavras da aglomeração não fazem sentido. Gente que entrou depois já comeu e foi embora. O que está acontecendo? Um rapaz estiloso fala com o dono — parece ser o dono — e começa seu primeiro dia de trabalho. Coragem. Até o meu vizinho está neste lugar. Nos cumprimentamos. Mundo pequeno.
A hora passa e vejo um funcionário removendo a torta da gôndola. É agora! Estou feliz. Meu espresso chega à mesa e a fatia tão aguardada acompanha. Dou uma garfada. Dura. Boto na boca. Seca. Tento ignorar a frustração e pego um pouco do recheio. Azedo. Está estragada. Bebo o espresso para lavar a frustração e vou até a bancada tentar ganhar meu dinheiro de volta.
Falo com um, falo com outro e todo mundo parece distraído. O rapaz — aquele que começou o seu primeiro dia ali — tenta conversar comigo e resolver minha questão. É argentino e não entende uma palavra em português. Eu tento explicar:
— O bolo está azedo — falo bolo, porque esqueço que é uma torta. Evidentemente, ele entende errado.
— O copo?
— O bolo. Azedo.
— Ah, o bolo!
Sim. O bolo. Eu não trabalho aqui. Ele fala em espanhol, mas compreendo. Não trabalha? Por que você está me atendendo? Não, por que você estava atendendo outras pessoas? Estou ficando maluco?
— Não fala em espanhol? — me pergunta.
— Não — respondo.
— Mora no Brasil e não fala em espanhol?
Alguém me socorra, por favor.
Consigo avisar a mulher do caixa sobre a torta miserável. Ela pega a fatia e me alcança uma nota de vinte. Entramos em outra cafeteria aberta logo ali e bebemos um café mal feito servido numa taça de vinho. Eu não aprendo.
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