Imagine-se acordando e descobrindo que você é uma das pessoas mais famosas do mundo. Este é, provavelmente, um dos meus maiores pesadelos. Não existe preparo, você não tem tempo para assimilar tudo o que está acontecendo. A fama chegou, pessoas querem dar e tirar dinheiro de você. Sua alma é sugada. O público te transforma em um pedaço de carne falante sem sentimentos. Você acaba acreditando ser exatamente o que pensam sobre você.

Em 2018, Hank Green, famoso pelo seu canal no YouTube vlogbrothers com o seu irmão John Green, e pelos seus canais sobre ciência, estreou em uma outra plataforma: livro. O desafio do autor novato foi trazer aos nossos olhos as consequências que a fama nos tempos de uma internet cruel podem causar. Hank, que passou por esses mesmos obstáculos, consegue representar muito bem os sentimentos dessa vida peculiar através do ponto de vista da protagonista, April May, uma designer de 20 e poucos anos que teve a “sorte” de ser a primeira pessoa a registrar uma invasão alienígena na Terra e publicar no YouTube.

Pode-se dizer que sua vida nunca mais foi a mesma.

O primeiro livro, Uma Coisa Absolutamente Fantástica, publicado no Brasil pela editora SEGUINTE, não somente transita pelos caminhos pedregosos da fama como também elucida exatamente um dos problemas mais comuns que estamos vivendo: o discurso de ódio e a propagação de desinformação por grupos organizados para propósitos negacionistas. Já nessa primeira parte da estória composta por apenas dois livros, Hank Green cria – através da ficção científica – um documento histórico da nossa realidade.

A continuação (A Beautifully Foolish Endeavor – sem tradução em português), lançada em julho de 2020, nos leva mais além: para as corporações donas de monopólios digitais, que acabam se tornando países com as suas próprias leis. No livro vemos isso sendo elevado à uma potência que não parece ser tão absurda em um futuro próximo.

Além das previsões e reflexões sobre o futuro das redes sociais e o comportamento do ser humano quando colocado diante de uma situação de poder, Hank ainda traça paralelos políticos em ambos os livros como prevê a situação que nos encontramos atualmente: a pandemia. O autor é um cientista, que comunica ciência e educa a respeito do assunto para diversos públicos na internet. As previsões de pandemias e mudanças climáticas não são exatamente previsões – são simplesmente o que vem se falando há anos e ninguém dá ouvidos.

De qualquer maneira, permanece chocante o fato de o livro ter sido escrito antes do caos instaurado na saúde mundial.

Entretanto, as obras não são apenas sobre as tristezas do mundo real. Elas trazem oportunidades para refletir, mas também são ótimas aventuras de ficção científica com personagens reais e apaixonantes. Não é à toa que a April May se tornou um ícone das mídias sociais no universo do livro – a personagem é extremamente carismática, mas com todas as imperfeições de um ser humano. E isso fica ainda mais claro se você ouvir ao audiobook.

Não tenho mais nada a falar sobre o livro sem entregar spoilers. Tive que comprar as edições físicas de ambos, pois são referências incríveis sobre o mundo atual. Não vejo a hora de reler essa história daqui dez anos.


Se você curte Doctor Who, eu falei sobre o primeiro livro em um vídeo no canal no qual comparei o livro com a série.

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