Texto originalmente publicado na minha newsletter


Após o nascimento da fotografia os pintores tiveram de renovar as suas referências para encaixarem-se em um novo mundo que surgia. Ora, se um aparelho agora podia capturar paisagens exatamente como elas eram, por que diabos artistas continuariam representando-as como fiéis à realidade?

Aos poucos, novos estilos foram surgindo, movimentos artísticos ganharam seu pontapé inicial e a pintura que vemos atualmente é muito diferente do que existia há vários, vários anos atrás.

Isso aconteceu pois houve um desafio para aqueles artistas. Eles precisaram reinventar a forma como viam o mundo, pois o mundo transformava-se diante de seus olhos. A tecnologia chegou, qualquer pessoa (exagerando aqui) podia fazer o que eles faziam com mais precisão e nitidez. A técnica, naquele instante, não era mais tão importante assim.

Curiosamente a fotografia não era tratada como arte, então fotógrafos usaram sua criatividade para fazer imagens que fossem similares às pinturas. Este foi o Pictorialismo, que fazia uso do desfoque e muito grânulo para dar efeitos atmosféricos às obras.

Hoje, o que vemos é o avanço acelerado e incontrolável das câmeras em celulares. Qualquer um (exagerando novamente) pode criar fotografias incríveis com um aparelho que cabe no seu bolso. Muitos – os que podem comprar os melhores smartphones do mercado – já tem a possibilidade de até mesmo fotografar as estrelas.

Veja bem, eu tive que estudar para capturar as estrelas no céu. Cada dia estamos mais próximos de um mundo que a técnica não será mais tão importante. 

Isso é um problema? Não. Eu não vejo o avanço da tecnologia como uma ameaça. Eu me preocupo, sim, com o pensamento criado que qualquer pessoa pode fazer o meu trabalho e, por consequência, achar que não precisa pagar pelo que eu faço. Mas isso é apenas um detalhe chato (muito chato). Neste texto quero trazer uma visão mais ampla e menos pessimista.

Ao refletir sobre o assunto, percebi que chegamos novamente na mesma situação que os pintores se viram naqueles tempos tão diferentes: é hora de mudar. E se não mudarmos, a tecnologia irá nos engolir.

O fotógrafo, ou seja, o artista que usa a fotografia para expressar o que sente e usa o seu olhar para contar sua história, deverá transformar o próprio trabalho. Uma fotografia de um céu estrelado não será mais novidade, um belo registro de uma praia não será mais suficiente, um retrato bem iluminado e bem composto precisará ser muito mais do que isso.

A câmera fotográfica está democratizada, a internet ensina a fotografar, as pessoas estão cada vez mais inteligentes. Agora a nossa função é transformar o mundo (do nosso próprio jeito), e mostrar a ele como podemos usar essa ferramenta para trazer novas perspectivas do nosso olhar.

Minha nova missão, nessa pequena-grande epifania é mudar e caminhar lado a lado com a tecnologia, pois sinto que estamos vivendo a história e não quero deixá-la passar.


Fotografia: Natureza-morta. Jonathan Holdorf.

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