A Igreja no topo da montanha mostrava-se admirável perante o mundo. Era uma coisa deslumbrante de se ver e absurdamente magnífica de visitar. Senhorinhas, crianças e velhos com chapéus de palha e cigarros feitos à mão iam à missa todos os domingos. Ninguém sabia o porquê, mas a Igreja estava sempre lotada, mesmo após a chegada do novo Padre. 

“Como o novo Padre é esquisito!”, comentavam. 

“Vô te dizê, aquelas são umas tatuagem de muito mau gosto, isso sim”

 “Amém, irmão! Que Deus me perdoe, mas ele parece um ex-punk que decidiu encontrar o caminho do Senhor! Mas não tô aqui para julgar ninguém” disse a Dona Gertrude fazendo o sinal da cruz.

Desde o início dos tempos, os cidadãos de Velha Igreja – a vila que ficava no outro lado do riacho ao pé da montanha – sabiam que lá em cima moravam duas pessoas: uma senhora muito idosa de cabelos pretos como a noite, que usava roupas similares às de uma freira, e uma garota de mais ou menos seis anos. 

Pela boca miúda das senhorinhas e teóricos da conspiração, a Freira e a garotinha não eram humanas. E, bem, a fofoca tinha um grande teor de veracidade.

A senhora chamava-se Viktoria T e a garotinha era conhecida como Jasmine T. Elas não tinham sobrenome, ou o seu sobrenome fora há muito perdido pelo tempo. Elas descendiam da família T, composta por avós e netas que viviam ao redor do mundo. 

As meninas eram inteligentes como enciclopédias, conheciam o universo e tinham olhos que refletiam galáxias. Elas eram extremamente perspicazes e assustavam todas as outras crianças com quem conversavam – o que levava a uma vida muito triste e muito solitária.

E de solidão Viktoria entendia. Sua vida fora amaldiçoada por traumas e profundas ansiedades. Seu medo de viver no mundo era tão grande, que o simples fato de pensar em viajar ou sair da Igreja a deixava paralisada como se não tivesse mais controle do seu corpo. Tinha tanto pavor dos perigos do universo, que fazia de tudo para que Jasmine nunca ficasse desprotegida.

A Igreja era o seu lar, sua vida e tudo o que tinha.

A Igreja, no entanto, era apenas o conceito de uma Igreja que ficava lá parada esperando o seu momento de virar uma Igreja. Ao lado da Igreja – que não era Igreja –  havia um cemitério, o lugar favorito de Jasmine. Também fora o lugar favorito de Viktoria nos tempos de outrora. 

A Igreja por dentro era igual a uma igreja, porém diferente. As velas acendiam-se sozinhas, o Padre dava os mesmos sermões todos os domingos e o recipiente da água-benta era o mesmo em que o cachorro bebia depois da missa. Exceto Viktoria e Jasmine, ninguém parecia notar quaisquer peculiaridades naquela Igreja. Também pudera, ninguém conseguia notar mais nada no mundo.

Naquele domingo, Jasmine conversava com os corvos no cemitério e observava as senhoras caminhando por entre as lápides, colocando flores no chão e derramando lágrimas envergonhadas pelos seus rostos. Ela imaginava que aquele devia ser um lugar muito divertido para as senhoras, pois elas ficavam lá todos os domingos. “Isso deve ser o que eles chamam de cinema”, refletiu. Ela não poderia estar mais certa. Sua avó lhe explicara que cemitérios podiam ser absolutamente qualquer coisa se as pessoas acreditassem o suficiente.

“Assim como a Igreja parece com uma Igreja, vovó?” perguntou.

“Exatamente” respondeu Viktoria enquanto bebericava o café em sua xícara.

Jasmine contentava-se com as explicações de sua avó, mas às vezes sentia que ela concordava com tudo o que dizia. Será que uma criança de seis anos podia saber tanto sobre a vida sem a sua avó corrigi-la uma vez sequer? Ela nunca a levava para a feira ou para comer um bolo em alguma confeitaria na vila. O que ela sabia sobre a sua existência era o que o universo havia lhe contado. 

“Vó, posso ir à feira amanhã com a senhora?” 

Ao questioná-la, sua avó pareceu não ouvi-la.

Realizara que não obteria as respostas que desejava e entregou-se ao sono.

Viktoria ficou por um tempo refletindo sobre a pergunta de Jasmine. Ela sabia que a garota começaria a questionar sobre as coisas simples do mundo. Ora, ela passara por exatamente o mesmo quando a sua avó, Lucilla T, lhe trouxera ao universo. Era um ciclo e agora havia chegado a sua vez. Mesmo sabendo que isso seria apenas mais uma etapa que ela deveria enfrentar, não conseguia impedir os pensamentos pessimistas de que tudo daria errado. E podia dar. Qualquer interação mal planejada poderia ser catastrófica. “E se ela quiser ter amigos?”, “E se ela quiser ter um trabalho?”, “E se as pessoas da feira começarem a questionar a sua sabedoria e a tirarem de mim?”, “E se ela virar uma atração de circo ou programa de televisão?”, “E se alguém tentar sequestrá-la?”. Viktoria não queria isso, pois sabia como o mundo podia ser cruel. Elas não vieram ao mundo para servir de entretenimento aos seres humanos. 

Ela não dormiu naquela noite lembrando da primeira vez que participara do mundo real, longe da Igreja. Ao contrário de Jasmine, Viktoria não precisou insistir que sua avó a levasse para a feira ou ao cinema.

“O cinema é muito melhor do que o cemitério, Viktoria. Lá você pode ver mortos-vivos de verdade e não somente na sua imaginação.” disse a sua avó.

“Mas eu não quero ir ao cinema, vó! Eu quero ficar aqui!” 

Havia um terror no coraçãozinho da pequena Viktoria, que disparava toda vez que imaginava-se saindo de casa. Ela suava frio e temia o que falariam dela, que a achassem estranha, que outras crianças não entendessem as suas peculiaridades. Da última vez que interagiu com alguém – além de sua avó – foi quando uma garotinha estivera no cemitério e a vira contando segredos ao corvo. O corvo a compreendia, mas a garotinha não.

“O que você está fazendo?”, perguntou a garotinha.

“Eu estou contando ao Sr. Corvo que as árvores brigaram hoje pela manhã, mas consegui que fizessem as pazes”, ela sorriu.

“As árvores?”, a garotinha levantou uma das sobrancelhas.

“Sim! Quando elas brigam os passarinhos não fazem ninhos nelas e suas folhas caem e isso é horrível para todos”, Viktoria explicou sem notar a expressão confusa da menina.

“As folhas caem no outono e as árvores ficam peladas no inverno”, ela disse.

“Sim, porque elas estão brigadas durante todo esse tempo. Nem sempre eu consigo convencê-las que fazer as pazes é melhor do que discutir. Isso acontece pelo menos uma vez ao ano.”, ela sorriu.

Suas conversas com outras pessoas eram sempre assim e a sua frustração ao ver que não era levada a sério foi construindo uma dor em seu peito.

Aceitando a insistência de sua avó, foram ao cinema. 

“Por que o homem e a mulher ficaram juntos, vó? Claramente as duas mulheres tinham muito mais em comum do que ela e aquele monstro que batia nela”, Viktoria questionou.

“É assim que o mundo deles funciona, querida”, a avó respondeu.

“Bem, é um mundo em que eu não quero viver”, ela concluiu.

Elas saíram da sala e Viktoria continuou com dezenas de perguntas. Perguntas que seriam respondidas facilmente por qualquer adulto do mundo, porém impossíveis de serem explicadas por sua avó. Suas palavras mais confundiam a neta do que ajudavam. Lucilla T percebera que sabia de tudo e, em consequência, não compreendia nada.

As ruas estavam lotadas. No início dos tempos, a vila era um lugar em que pessoas iam para buscar paz e refúgio.  Com o passar dos anos, o local transformou-se em um ponto turístico muito requisitado graças aos seus ótimos cafés, pães fresquinhos, queijos maravilhosos e festivais de arte e cultura. Jornalistas famosos iam até lá para fazer matérias sobre os encantos de Velha Igreja.

A paisagem também não deixava a desejar. No topo da montanha ficavam a Igreja e o cemitério. Descendo a ladeira, uma cachoeira banhava um riacho que serpenteava por entre as outras montanhas verdes e cheias de árvores. As pessoas faziam piquenique na beira do riacho e algumas arriscavam tomar banho por lá. Nada era cobrado. A cidade acreditava que a natureza dera aquilo de presente aos seres humanos, então os seres humanos tinham o direito de aproveitar. Isso era verdade, claro. Mas não foram os políticos ou empresários que decidiram isso. A regra tinha sido estabelecida há muitos anos pela tataravó da avó de Viktoria – antes de a vila ser uma vila e antes do mundo ser mundo. Todos os que pensavam em lucrar com o lugarejo desapareciam misteriosamente. O mesmo acontecia com quem se atrevia a jogar lixo no lugar errado.

Era muito raro Viktoria e sua avó irem até a vila. Quando iam, chamavam a atenção por causa dos seus olhos que refletiam galáxias e seus estilos peculiares. Viktoria usava um casaco azul-marinho com estampas de coelhos dourados e um cachecol multicolorido que ia do seu pescoço até os pés. Por cima do seu Hábito Religioso, Lucilla esvoaçava uma capa roxa com pássaros brancos que batiam as asas toda vez que o vento balançava a peça de roupa. Ela tinha cabelos vermelhos com mexas verdes e seu sorriso era dourado e ameaçador. Ela era gentil apenas com a sua família e não tolerava as criaturas que lá viviam. De vez em quando, ela descia para cuidar de alguns assuntos, mas não gostava nem um pouco da atividade. Contudo, sabia como era importante que Viktoria conhecesse o mundo e não ficasse limitada apenas ao ensinamento do universo.

E naquele dia, quando finalmente foram à vila, Viktoria sofrera o primeiro de seus traumas. O trauma que a fizera ter medo de mostrar o mundo à Jasmine.

Elas estavam caminhando pela rua lotada de pessoas e, enquanto observavam as barracas de mercadorias, um homem velho com uma cartola, correntes prateadas e botas com solas de metal agarrou o cachecol da garotinha – que na época tinha apenas 8 anos – e começou a arrastá-la para longe de sua avó. O homem permanecia em silêncio enquanto Viktoria gritava até a sua voz falhar. Ela sabia que o mundo era terrível e que devia tomar cuidado. Mas tomar cuidado com o quê? Ela estava apenas olhando os brincos coloridos em uma barraquinha. O que de mal poderia acontecer ali? O velho continuou arrastando-a. Enquanto ela gritava, ele sussurrava: “Shhhhh, pequena cobra. Quieeeta. Quieeeeta. Tu és estúpida. Tu és ridícula. Tu não deverias ter vindo aqui com tuas rrrrrrroupas estúpidas e rrrrrrridículas. Aqui não é o teu lugar, estúpida criança. Tu não podes caminhar perto dos normais.”

Ela gritava. Gritava como se sua vida dependesse do seu grito. E dependia.

Lucilla ouviu ao canto assustado de sua neta e percebeu o que estava acontecendo. Em um lampejo de raiva, ela fez com que tudo ao seu redor congelasse. As pessoas ficaram presas no tempo, o mundo não girava, o universo obedecia às suas ordens. Apenas ela, Viktoria e o Helho Vomem, como era chamado o Velho Homem, podiam se mexer.

“Solte-a, seu rato!”, ela ameaçara. 

“Lucilla. Tua maldita. O que queres no MEU reino?” o Helho Vomem tirou a cartola e apresentou suas tranças feitas com os fios restantes dos seus cabelos.

“Seu reino? Você não é nada, Helho. Você é lixo. Você é o resto queimado da panela. Você não é nada.” 

O Helho Vomem deu um sorriso e tirou um pergaminho de dentro da cartola.

“Vês? O contrrrrrato? Tuuuuuudo isso agora é meu… heheheheeh.”

Lucilla já tinha perdido toda a paciência.

“Não! Você nunca será dono de nada. Você é só um resto de esgoto, Helho.”  

O que aconteceu depois ficaria marcado na mente de Viktoria por muitos anos. Sua avó, mais tarde, ensinara-lhe a se proteger da mesma forma que as protegera naquele momento. Ela pôde ver os olhos de Lucilla T iluminando-se freneticamente enquanto galáxias eram projetadas por todos os lados. Uma a uma, as estrelas foram até o Helho Vomem e removeram toda a luz que existia dentro dele. Sua alma fora engolida por um buraco negro e sua existência dividida por diversos planetas. Ele estaria para sempre perdido, tentando voltar, mas nunca conseguindo; estando consciente, mas nunca capaz de pensar – ele virara pó.

Apesar de saber que o homem horrível nunca mais retornaria, Viktoria tinha dentro de si uma angústia impossível de chacoalhar. Era um pânico, uma ansiedade profunda, que consumia toda a sua alegria. Mas era inevitável. Por mais que tentasse proteger a neta, Jasmine permaneceria insistindo e, se não a levasse à feira, talvez ela tentasse ir sozinha e isso seria muito pior.

A manhã seguinte começou chuvosa e Jasmine sabia que isso significaria o cancelamento da feira. Ela nem precisou tocar no assunto para ter certeza de que a sua avó não desceria até a vila naquele dia. “Tudo bem”, ela pensou. “Vou brincar na Igreja, hoje” e planejou o dia em sua própria cabeça. 

Jasmine caminhou pelo enorme corredor central da Igreja e subiu as escadas que davam acesso ao mezanino nos fundos. Lá era o seu lugar favorito, até mesmo quando a missa estava acontecendo e ela assistia às reações das pessoas enquanto o Padre falava exatamente as mesmas palavras. Ela ficava lá em cima, divertindo-se, como uma espectadora em uma apresentação de teatro.

Havia crianças que choravam todos os domingos e senhoras que também choravam. “Será que estão chorando pelos mesmos motivos?”, perguntava-se. “Por que bebês e senhoras choram ao virem à Igreja? É um choro de felicidade ou de tristeza? Se for de tristeza, por que continuam vindo?”. Ela queria entender essas questões básicas sobre os seres humanos, porém estava presa em uma montanha.

Desceu as escadas e foi até o altar, mas não encontrou nada de interessante por lá. As velas estavam quietas e as estátuas nada diziam. “Já é meio tarde da manhã para ainda estarem dormindo”, pensou. Deu de ombros e abriu uma porta que ficava escondida um pouco mais ao fundo, ao lado da cruz gigantesca pregada na parede. Era a sacristia, o lugar em que o Padre ficava nos domingos. Ela nunca tinha conversado com o Padre. Em sua imaginação, aquele homem era apenas mais uma invenção da Igreja, que aparecia quando a missa estava para acontecer. Grandiosa foi a sua surpresa quando viu que ele estava concentrado dentro da sua salinha escrevendo em uma caderneta qualquer.

O Padre estava vestido como um padre. Ele tinha tatuagens de cruzes em cada uma das bochechas e os seus dentes eram tão podres quanto os mortos do cemitério. A maioria das suas frases eram ditas como se uma pessoa muito burra tentasse conversar  usando parábolas.

“Em verdade, em verdade vos digo: um dia, uma criança muito chata entrou num lugar que não fora convidada e um homem muito sério perguntou ‘o que você quer, pentelha?’”, ele expressou uma fúria que Jasmine jamais havia visto.

Alguns minutos depois ela percebeu que a sacristia não era mais a sacristia da Igreja. Era como uma caverna cheia de criaturas gosmentas, velas com chamas azuis e anjos mortos pendurados em varais feitos de nervos e intestinos. O cheiro era ainda pior do que o hálito do Padre. 

“Eu… eu estava apenas… Eu…” Jasmine sentia a sua alma desprendendo-se de sua luz interna. Seu coração estava congelado e sua boca tinha gosto de vinagre. Quanto mais tentava gritar, menos conseguia emitir qualquer som.

“Eu Eu EU EuEuEuEUEU” imitou-a, usando uma voz como se um violino estivesse sendo tocado por uma lixa. “Perdeste a voz, pentelha? Hum?” ele pegou um candelabro, que parecia com a mão de um esqueleto com velas nas pontas dos dedos. Acomodou a própria mão em cima do fogo e nada aconteceu. “Tu vês isto? Eu tenho uma parábola para te contar” ele falou enquanto olhava fixamente para Jasmine. “Eu não posso mais queimar, cara irmã!” a raiva da voz misturava-se com uma espécie muito estranha de tristeza. “Em verdade, te digo: havia um homem que costumava viajar. Ele andava pelas chamas e via mundos, mas uma senhora muito, muito irritante o prendera em uma igreja idiota!”, seus dedos magros passavam pelo fogo que ardia com fúria. “Se tua cabecinha minúscula não assimilou a parábola, eis que o homem sou eu e ninguém mais! Tua avó fizeste isso comigo. Me trancaste sem dizer-me a razão. Criaturinha muito cruel, tua avó”.

“Ela…” Jasmine tentou falar. “Ela… nunca faria isso com alguém… sem que essa pessoa merecesse”

“Irmã… Entenda, irmã! Quem é ela para julgar este homem de bom coração? Quem é ela para escolher entre o digno e o condenável? Ela é Deus? Ela é a juíza suprema? Ou apenas uma velha com medo de viver? Irmã, ela me PRENDEU neste receptáculo para apodrecer. Eu estava perdido e ela não me mostrou o caminho. Ela me mostrou crueldade como satanás mostrou a fruta proibida. E agora é a MINHA VEZ.” ele gritou e Jasmine pôde sentir o mundo congelando.

A sua grande capa dançava com o vento e seus cabelos sob a chuva eram como petróleo escorrendo pelo asfalto. As nuvens choravam com fúria, os raios rasgavam o céu e seus olhos explodiam em luminosas galáxias por todos os lados. Aquele dia seria inevitável, pensara consigo. Não havia como desviar do destino. Ela não tinha sua avó, Lucilla, para salvá-la. Ela não tinha a fúria de sua criadora para acobertá-la sob as suas asas aconchegantes. Tudo o que ela tinha era a si própria e Jasmine. Bem, ela tinha Jasmine. Acreditar em si era como torcer para que a loteria resolvesse os seus problemas ou para que as ondas do mar lhe trouxessem ouro. 

Desta vez, Viktoria teria de ser corajosa. Não por si, mas por Jasmine, que dependia dela. Ela sabia que a garota corria perigo – sentia em seus olhos. Suas galáxias choravam e seus planetas gritavam de dor. Algo havia acontecido. Não ousava pensar naquilo. Não queria admitir que a sua neta, sua própria criação, estava nas garras de quem ela prendera justamente para protegê-la. Sentia-se horrível – uma dor no peito como se as próprias unhas do Padre estivessem penetrando em seu coração.

O cemitério ficava ligeiramente perto da Igreja, porém ela não conseguia se mover. Seus pés estavam pesados como rochas, e na sua frente havia uma montanha cheia de obstáculos e desafios. Não era uma montanha de verdade e seus pés não eram feitos de rochas. O desafio estava na sua cabeça, na sua ansiedade, no seu pavor e na possibilidade de um destino catastrófico. Durante toda a sua vida evitara confrontos. Quando ia para a feira aceitava todos os preços sem questionar, mesmo descobrindo mais tarde que os comerciantes tiravam vantagem dela. Evitava conversar com suas irmãs ao redor do mundo, pois sabia que discutiriam por horas e até mesmo considerariam tirar a sua visão do universo.

Ela não podia deixar a sua neta morrer, mas estava considerando a possibilidade. Não considerava a possibilidade por não amá-la. Amava-a mais do que tudo. Considerava a possibilidade, no entanto, pois entendia a sua falta de coragem.

“Por favor, universo, se você consegue me ouvir, ajude-me. Eu não consigo fazer isso sozinha”, ela exclamava para o alto com os seus olhos de galáxias perdendo cada vez mais o brilho. Suas lágrimas caíam pelo rosto e confundiam-se com as gotas de chuva. 

O universo não respondeu.

Ela poderia ter esperado por horas e o universo ainda não teria respondido, pois ela era o universo. Era ela quem deveria secar o choro das crianças, era ela quem deveria dar oportunidade para os que não tinham chances na vida, era ela quem deveria destruir o mal para que o bem pudesse viver em paz. Mas ela não queria isso. Ela vivera toda a sua eternidade escondendo-se da sua missão. Agora, quando a única coisa que mais importava nesse mundo estava prestes a morrer, ela também não conseguia ajudar.

“O que eu posso fazer? Eu não sei o que fazer!?”

Ela continuou gritando por minutos.

Suas galáxias se dissiparam. Todo o poder que tinha em si havia sumido. Ela sabia o significado daquilo. Sabia que era o fim. Era o seu fim. O fim de tudo. O fim de Jasmine. Naquele momento, naquele único instante de tempo, debaixo da chuva gelada que, pela primeira vez, a fizera tremer de frio, tornou-se humana.

A névoa da madrugada beijava o seu rosto pálido e frio enquanto pensava em como fora tola por ter deixado sua neta morrer. A princípio, virar humana parecia ainda mais um desafio que ela não conseguiria enfrentar, mais um motivo para que toda a sua ansiedade a impedisse de lutar. Mas, durante todas aquelas horas pensando e pensando e pensando, percebera que estava aliviada. Ela não tinha mais a responsabilidade do universo em suas costas. A carga de ser importante já não a pertencia mais. Pertenceria a qualquer outra pessoa muito mais apta para o trabalho, mas não a ela.

Isso não a impedira de ficar inquieta. As palmas de suas mãos estavam estranhamente molhadas, assim como todos os poros do seu corpo. Ela nunca passara por isso. 

Tentou recolher os seus pensamentos para analisar a situação de forma racional. “Tem muita neblina no meu cérebro, eu não consigo raciocinar direito”, refletiu. “Eu preciso de algo para me acalmar”, então caminhou até a igreja. Um passo de cada vez. Seu estômago estava congelado e roncava feito uma criatura da noite a cada segundo que se aproximava da entrada.

Quando abriu a porta percebeu o que havia acontecido: o interior da Igreja não parecia mais com uma igreja. Agora era um ambiente claro, com luzes brilhantes por todos os lados, botões e controles em diversos painéis coloridos que passeavam pelas paredes e terminavam em bancadas ao seu redor. No lugar das velas, cilindros de vidro guardavam galáxias antigas. Substituindo o altar, um console com monitores e teclados holográficos esperavam a piloto. “Boa garota”, ela pensou, dando um sorriso cansado para a igreja, como se compartilhassem um segredo.

Ela estava aliviada em saber que o Padre ainda não tinha descoberto que a Igreja era uma nave disfarçada. Pelo menos chegara em tempo para isso. Agora precisava encontrá-lo e, finalmente, pôr um fim em tudo aquilo. Em sua mente, o desejo era de acionar os comandos e partir dali, longe daquele mundo, longe de todas as pessoas e isolar-se para sempre na escuridão de outro planeta. Mas o que ela faria sozinha? E se Jasmine não estivesse morta? Ela não era a pessoa mais otimista do mundo, porém nada ainda provara que a sua neta havia morrido. Seria estúpido e inconsequente deixá-la sozinha com aquele homem terrível. A sua ansiedade para enfrentar os desafios era grande, mas nada seria maior do que a culpa de não ter tentado.

Caminhou silenciosamente pela nave e ajustou alguns controles. Apertou botões e acionou funções. Tudo estava pronto para uma possível fuga. Se algo acontecesse ela teria total confiança em puxar uma alavanca e dar o fora dali. Esperava que funcionasse.

Seus olhos não refletiam galáxias, mas toda a coragem que reunira dentro de si formou pequenas estrelas no seu estômago. Percebeu que podia usar a ansiedade a seu favor como uma arma para confrontar o que quer que fosse. Ainda precisaria trabalhar na sua saúde mental, mas faria isso em breve. “Um passo de cada vez”, pensou. E de passo em passo chegou na porta da sacristia. Um arrepio viajou por todo o seu corpo. Não tinha como voltar atrás. Ela abriu a porta e escuridão revelou-se diante do seu rosto.

Jasmine estava deitada em uma rocha gigante no meio da caverna úmida e putrefata. O Padre, de costas, lambia os seus dedos com o sangue de outros dedos que parecia ter comido recentemente. “Oh! Amém, irmãos. Fi-nal-men-te!”, sua voz era rígida como o toque de gelo na pele. Então virou-se para ela. Agora sua verdadeira face estava exposta: não havia mais um Padre ali. As tatuagens de cruzes no seu rosto, na verdade, eram formadas por ossos pendurados em seu crânio exposto. Um líquido preto e gosmento pingava pelos seus dentes pontiagudos. Sua língua dividida ao meio jorrava veneno que escorria como uma cascata pelos seus lábios feitos de couro seco. O resto do seu corpo era igualmente horrível: suas pernas eram feitas de galhos de árvores e o seu peito transparente mostrava o seu coração escuro e órgãos decompostos. Era uma figura horrível de se ver. 

“Jasmine…”, ela sussurrou.

“Irmã, acalme-se. Coloque sua cabeça estúpida para funcionar. Em verdade vos digo, cara congregação, ela vive! Mordi os seus dedinhos, claro. Mas é como nos revela a parábola do mordedor de dedos: ‘que delícia.’ Ela desmaiou, a coisinha fraca. Isso foi chato.”

“Se você a machucar novamente eu…”

“Tu és humana, agora, irmã. O que pretendes fazer?”

“Ah, sim, posso ser humana. Aliás, ainda bem que sou. Porque eu vou dar apenas uma, UMA chance para você”, ela tentava buscar coragem lá do fundo da sua alma.

“Hah! E o que seria isso?”

“Eu darei permissão para que você vá embora”, ela disse.

“Isso é divertido, cara irmã. Mas tu não tens mais poderes, em verdade te revelo”

“Não tenho, mas eu não preciso deles para dar permissão”, ela sorriu.

“…O quê?

“Você sempre foi muito burro, não é? Você poderia ter ido embora quando quisesse” 

“…Como?”

Agora Viktoria estava começando a gostar daquilo. Ela tinha o Padre em suas mãos.

“É bem simples, na verdade. Mas você nunca irá adivinhar sem a minha ajuda. Aliás, sem a ajuda de Jasmine. Você só será livre se ela estiver viva”.

“O QUE QUERES TU DE MIM?” sua voz era irritante como gatos brigando na madrugada.

“Eu quero Jasmine ao meu lado. AGORA!”, o seu grito ecoou pela caverna, rebatendo pelas paredes.

“ENTÃO TOMA”, ele a pegou com as pontas dos dedos como se fosse uma pena e a colocou ao lado de Viktoria.

“Ótimo!”

“E AGORA?”

“‘E agora’, o quê?”

“LIBERTE-ME!”

“Haha. É claro que eu não vou fazer isso”

Viktoria pegou Jasmine no colo e com toda a velocidade do mundo saiu da sacristia. Correu até o altar, apertou alguns botões e puxou a alavanca. O que antes era a sacristia virou uma pequena caixa de sapatos selada pela eternidade com o Padre lá dentro. A Igreja, com todo o seu poder e glória, levantou do chão e voou em direção ao céu.

A porta de madeira estava aberta, deixando as cores do universo invadirem o chão branco do interior da nave. Elas sabiam que a vida não seria perfeita. Não importava para onde fossem, ainda teriam de lidar com os seus traumas, os perigos e criaturas malignas que vagavam por todos os cantos da existência. Naquela noite, contudo, não se preocuparam. Aceitaram o seu destino incerto e contemplaram o céu vasto e infinito, que as abraçava com o seu silêncio acolhedor. 

“Jasmine, querida, deixe-me ver os seus olhos”. Elas observaram as profundezas dos seus olhares por alguns minutos. Jasmine sabia que a sua avó não fazia mais parte do universo, mas conseguia ver as estrelas brilhando em sua alma, mesmo que seus olhos não refletissem as galáxias. Da mesma maneira, Viktoria também não as enxergava projetadas nas pupilas de sua neta. Um certo medo fez seus ossos tremerem. A garotinha também perdera os seus poderes, também estava desprotegida, também teria de lidar com a sua humanidade. 

Afastou o pensamento negativo da mente e continuou investigando os olhos de Jasmine. As estrelas, agora, eram metafóricas. Os reflexos já não existiam mais. Bem, havia um reflexo. Uma única fagulha de imagem flutuando pela escuridão de suas pupilas. Havia alguém lá dentro, sorrindo, tranquilizando-a e fazendo-a ficar sã e salva.

O único reflexo que viu foi o de si mesma.

FIM.

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