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É fácil ignorar um quadro na parede. Ele pode ser comum, sem muita expressão — apenas um quadro na parede. Quando criança, o quadro na parede te levava para outros mundos, fazia a sua imaginação flutuar pelo céu azul e pelas ondas violentas do mar. Hoje, o quadro na parede permanece ignorado, cheio de poeira, abandonado pelo resto de sua existência.

Também é fácil de ignorar um livro na estante. Passam-se os meses após a leitura e você o esquece naquela metrópole de livros, naquela multidão de personagens que vivem suas quietas vidas nas páginas. O tempo passa. Você continua vivendo, e eles também.

Tantas pessoas que foram registradas, tantos mundos narrados e, ainda assim, a maioria deles esquecidos — tentando gritar, falar o seu nome; mas você já está em outra. Você seguiu em frente.

Lá de vez em quando você ouve um sussurro. O quadro transborda e enche o seu quarto com a água do mar. Os personagens saltam dos livros e conversam com você como velhos amigos. Você começa a lembrar de todas as aventuras, de como elas foram boas e como moldaram quem você é hoje.

Um sorriso aparece no seu rosto — quieto, envergonhado, orgulhoso. Um sorriso de quem imaginou-se ter seguido em frente; de quem mudou, de quem virou adulto e agora tem compromissos.

Porém, você pensa, às vezes é preciso navegar pelas ondas daquele quadro, descobrir um reino dentro de um guarda-roupas e desbravar as-já-desbravadas páginas do seu antigo livro.

Você sente falta daquele lugar.


Quando estudei fotografia documental na faculdade tive contato pela primeira vez com o livro “American Photographs” de Walker Evans. É uma compilação de fotografias feitas nos anos 30 retratando a vida americana, sua espontaneidade e passagem do tempo.

Essas imagens logo vieram à mente quando comecei a pensar sobre o assunto da newsletter para esta semana. Eu queria falar sobre livros, e como livros nos transportam para outros mundos e como estórias de fantasia, por exemplo, criam novos universos dentro de uma realidade muito próxima à nossa.

Exemplos como As Crônicas de Nárnia, Coraline, Oceano no Fim do Caminho e até mesmo Doctor Who; elas nos proporcionam uma experiência de conhecer lugares próximos que, ao mesmo tempo, estão distantes.

Quando vejo American Photographs tenho a mesma sensação. A sensação de que estou olhando por uma janela para outra realidade e que aquele mundo já tão distante faz parte de uma fantasia, de um vislumbre ao passado que nunca poderei tocar, apenas ver.


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